08/06/2016

(Saindo do divã)

 
Saindo do divã
- © Lenise M. Resende -

Existem tantas expressões iniciadas com o verbo sair que, antes de mencionar algumas delas, precisei buscar ajuda nos dicionários (Aulete e Michaelis) para organizá-las melhor:

. Sair às avessas é a expressão usada para descrever uma situação em que alguém se frustrou ou fracassou.

. Sair de si é a expressão usada para descrever uma pessoa que se irritou, e perdeu o autocontrole diante de uma situação desagradável.

. Sair de fininho, ou sair à francesa, é a expressão que descreve a maneira discreta usada por alguém que tentou sair de um local sem ser notado, ou sem se despedir. Expressa também a forma usada por alguém que discretamente evitou se envolver em algum conflito ou situação difícil.

. Sair da concha é a expressão usada para descrever uma pessoa que colocou de lado a sua habitual modéstia e acanhamento.

. Sair do armário é a expressão que descreve o anúncio público feito por alguém que decidiu revelar, à família e aos amigos, a sua orientação sexual.

. Sair do fundo do poço é a expressão usada para descrever a recuperação de alguém que esteve muito desanimado, abatido ou deprimido. Chegar ao fundo do poço, em sentido figurado, é o mesmo que chegar ao ponto mais difícil de uma situação.

. Sair do divã é a expressão que descreve o anúncio público feito por alguém que decidiu contar, à família e aos amigos, que tem um transtorno psiquiátrico. É tornar público um assunto que era falado apenas no divã, isto é, na sessão de psicanálise ou no consultório do psiquiatra.

Quando menos se espera, alguém sai com uma declaração inesperada, imprevisível, e nos surpreende. Em geral são artistas famosos que tomam essa atitude de sair do armário ou do divã.

No seu livro intitulado O Demônio do Meio-dia: Uma Anatomia da Depressão, o escritor Andrew Solomon escreveu: "Num livro que tem como um dos principais objetivos remover o estigma da doença mental, é importante não reforçar esse estigma escondendo a identidade de pessoas deprimidas. No entanto, incluí as histórias de sete pessoas que desejaram ser mencionadas por pseudônimos, e que me convenceram de que tinham um motivo importante para tal."

Foi muito sensata essa atitude do Andrew Solomon. Assim como muitas pessoas já se identificam como deprimidas ou distímicas, existe um número ainda maior de pessoas que evitam revelar que sofrem de algum transtorno mental.

No Facebook, por exemplo, existem muitos grupos fechados onde se oferece apoio, informações e oportunidade para desabafar aos portadores de transtornos psiquiátricos. Mesmo assim, só uma pequena parcela de membros se manifesta, seja por medo de que algum conhecido esteja no grupo ou qualquer outro tipo de receio. Mas para aqueles que não estão conseguindo verbalizar seus sentimentos faz bem ler o que os outros escrevem.

Graças as campanhas efetuadas pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), a existência de preconceito contra os portadores de transtornos e deficiências mentais já começa a ser discutida nas redes sociais. E, mesmo que esse debate demore mais um pouco para chegar às famílias, esse dia há de chegar.

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Nota - Crônica filosófica (reflexão a partir de um fato ou evento)
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