05/07/2016

(Tudo bem)

 
Faz de conta que está tudo bem!
- © Lenise M. Resende -

Acredito que algumas posturas são aprendidas na nossa infância. E que, muitas delas, acabamos abandonando naturalmente, conforme vamos crescendo. Outras, porém, permanecem ajudando ou atrapalhando nossa vida.

Quando digo que são aprendidas na infância, é porque muitos pais acham necessário impor aos filhos um verdadeiro manual de bom comportamento.

Para livrar-se de situações constrangedoras, antes da chegada de uma visita, por exemplo, é comum que o pai ou a mãe lembrem aos filhos algumas regras de boas maneiras como: cumprimente a visita com um sorriso no rosto; agradeça os presentes; coma de boca fechada; não fale de boca cheia; não fale palavrões; etc., etc.

Se a visita vai dormir por um ou mais dias na casa, o filho que vai ceder a sua cama ou o seu quarto, será o mais doutrinado a ostentar uma expressão de agrado diante da situação.

Mesmo numa família que não receba muitas visitas, pode existir alguém mais sensível ou mais atarefado, e as notícias, principalmente as más, são constantemente adiadas ou ocultadas. E, para que a pessoa "sensível" não desconfie de nada, é preciso que os familiares se acostumem a ostentar permanentemente uma expressão de "tudo bem" no rosto.

Além disso, somados as regras sobre o modo de agir existem outros aprendizados feitos por simples observação. Um deles se refere ao vestuário usado pela família durante uma visita, que pode ser: roupas caseiras novas ou seminovas, e até mesmo as chamadas roupas de domingo ou de festa. Nessas ocasiões, as roupas manchadas, furadas e remendadas são escondidas. A casa também costuma passar por uma faxina, sendo depois enfeitada com objetos que só saem de seus respectivos armários nas datas festivas.

Depois de tanto ver essas ações e ouvir frases de incentivo ligadas à aparência, a pessoa vai se tornando expert na arte de enganar. Cara de doente, de aborrecimento, de choro, ou de tristeza são malvistas, portanto costumam ser escondidas ou disfarçadas. E sempre há alguém por perto dando dicas como: coloca um batom vermelho pra alegrar um pouco o seu rosto; usa uma roupa mais colorida que essa é muito triste. 

Em geral, o que começa como um comportamento fingido e restrito aos parentes, acaba se tornando automático e mais abrangente. Foi o que aconteceu comigo. Desde que me entendo por gente tento manter essa atitude de "estar bem", para não preocupar ou importunar os outros. É uma atitude automática, que só nos últimos anos começou a me incomodar.

Mesmo agora, que já reuni uma imensa quantidade de informações trazidas a superfície pela análise, sinto que necessito me aprofundar um pouco mais no assunto antes de tomar alguma decisão. Por enquanto, ainda sinto dificuldade em me mostrar realmente triste ou chorar diante das pessoas. Mas, sendo uma pessoa que há muitos anos declara abertamente ser portadora de depressão crônica (distimia), acredito que se fizesse isso não causaria surpresa em ninguém, e somente as pessoas mais próximas ficariam preocupadas.

Como não tenho tendência a me mostrar como vítima, não me custaria nada responder a indagação de "Como vai?" com um "Tudo bem!", mas em geral tenho respondido apenas "Mais ou menos!", sem maiores explicações.

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Nota - Crônica filosófica (reflexão a partir de um fato ou evento)
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